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Woulde nasceu na Etiópia. Deixou seu país em julho de 2004 e passou por cinco países antes de chegar ao Brasil.
Fala bem inglês mas tem bastante dificuldade com o idioma local.
Ficou preso durante um tempo na Polícia Federal. Dois irmãos seus morreram nas guerras no seu país, o qual ele se refere como "país de merda".
Woulde me parece ter um olhar esperançoso mas aparenta impaciência e não raro reclama de não ter trabalho e das demais dificuldades que tem enfrentado: "Cinco países jé me expulsaram. Não é fácil meu amigo".
Tem 31 anos e sempre me cumprimenta com educação e um sorriso no rosto.
Fazia muito frio naquele final de tarde de outono em Praga, capital da República Tcheca. Isso foi em 2004. A blusa de lã fina e o agasalho esportivo já não eram suficientes para suportar aquele clima, mesmo com o corpo supostamente aquecido pela caminhada que durara a tarde inteira.
Não dava pra agüentar.
Sem grana, mas favorecido pelo câmbio que tornava minhas libras esterlinas mais fortes em comparação à moeda local, tive que procurar alguma blusa barata pra comprar.
Entrei num brechó, procurei e achei uma blusa bacana de moletom. Era boa. Com capuz e tudo.
E o que era melhor: barata, muito barata, só 4 libras. Comprei, vesti ali mesmo e segui aliviado e finalmente aquecido pra noite que se aproximava. Que sorte!
Anos depois conversava com minha ex-namorada, que é bastante ligada em roupas de grife, sobre meu desinteresse por marcas caras de roupas. Era começo de namoro. Foi aí que ela me disse:
“É... você fala isso, mas tem uma blusa da Dana Karan, que é uma marca cara...”.
Era a blusa de moletom, com capuz e tudo, comprada por 4 libras num brechó pra aliviar meu frio naquele final de tarde de outono na capital da República Tcheca.
Cusco, Peru. Inverno de 2005.
A menina tentava espantar os turistas que tiravam fotos com suas lhamas. “Mis llamitas no, mis llamitas no!” Os turistas continuavam a descer do ônibus e os que não paravam pra tirar fotos passavam pela menina direto à próxima ruína prevista no roteiro.
Ela tentava conseguir algum dinheiro ou comida com quem tirasse foto com suas lhamas.
Rosita tinha a pele queimada pelo frio dos Andes Peruanos. Ganhou uma mixirica de alguém.
E umas moedas do viajante que preferiu tirar uma foto dela: eu.

Interessante como a reação acerca de um lugar, visto in loco ou mostrado em algumas fotos, pode variar de acordo com o olhar, a experiência ou o estado emocional de cada um; pode ir da beleza à melancolia; da obviedade de uma paisagem de cartão-postal à curtição solitária de um pôr-do-sol, montado numa bicicleta à beira de um penhasco na costa sul da Inglaterra.

Verão de 2004. Pouca grana e muita curiosidade. Fiquei sabendo de um lugar fantástico, a umas 2 horas de onde eu morava. Preparei o lanche, a bicicleta e embarquei no trem rumo aos penhascos de Beachy Head. Chegando a Eastbourne, típica impressão de cidadezinha costeira da Inglaterra, com píer, pubs, aposentados e tranqüilidade; afinal era tarde de domingo.
Pedalando pela costa, em caminhos de terra cada vez mais altos que o nível do mar, a impressão era de estar em um parque.
Muitas subidas, muitos morros íngremes; difíceis de subir. Paisagens bucólicas. Bancos convidativos. Tudo muito imponente, vasto e com o mar ali ao lado.
Depois de muito esforço, atrás do morro maior, finalmente o farol, no ponto mais alto e mais bonito. Fascinante. O fim de tarde nos ondulados penhascos de Beachy Head deixava tudo ainda mais bonito.

Ou melancólico.
Logo depois da minha visita, li num jornal que um grupo de voluntários organizara rondas para evitar que mais pessoas se jogassem do alto do penhasco.
Beachy Head é um lugar internacionalmente conhecido pelo número de suicídios que ali ocorrem.
Consta que já veio gente do Japão pra se jogar de lá.