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Já não impressiona tanto a passividade dos empregados em relação ao seu papel limitado aos interesses do capital; a chamada “naturalização”, mas sim a absorção dos valores e do discurso da classe alheia; referindo-se ao interesse privado com o pronome “nós”.
O “nós”, que não somos a classe trabalhadora, sugere a idéia de pertencimento ao grupo daqueles que compram a força de trabalho.
A idéia de pertencimento é mais importante que a própria individualidade no discurso que tem como idéia central a responsabilidade, a proteção; o cuidado: o “meu gerente”, “minha diretora”, “meu departamento”.
Por outro lado, até que ponto adotar a postura e o discurso que contradiz o interesse e condição do sujeito, enquanto classe trabalhadora, seria estratégia para se manter o emprego?
A doutrina neoliberal, possuidora de “competência”, que “agrega valor”, e “otimiza recursos” para um “plano de carreira” não parece ter abafado antigas expressões, ditas abertamente no próprio ambiente de trabalho, sobre o desejo de ganhar na loteria (e parar de trabalhar), sobre a segunda-feira pesada, lenta e chata e sobre a leveza das sextas-feiras.
Fazia muito frio naquele final de tarde de outono em Praga, capital da República Tcheca. Isso foi em 2004. A blusa de lã fina e o agasalho esportivo já não eram suficientes para suportar aquele clima, mesmo com o corpo supostamente aquecido pela caminhada que durara a tarde inteira.
Não dava pra agüentar.
Sem grana, mas favorecido pelo câmbio que tornava minhas libras esterlinas mais fortes em comparação à moeda local, tive que procurar alguma blusa barata pra comprar.
Entrei num brechó, procurei e achei uma blusa bacana de moletom. Era boa. Com capuz e tudo.
E o que era melhor: barata, muito barata, só 4 libras. Comprei, vesti ali mesmo e segui aliviado e finalmente aquecido pra noite que se aproximava. Que sorte!
Anos depois conversava com minha ex-namorada, que é bastante ligada em roupas de grife, sobre meu desinteresse por marcas caras de roupas. Era começo de namoro. Foi aí que ela me disse:
“É... você fala isso, mas tem uma blusa da Dana Karan, que é uma marca cara...”.
Era a blusa de moletom, com capuz e tudo, comprada por 4 libras num brechó pra aliviar meu frio naquele final de tarde de outono na capital da República Tcheca.