outros olhares

the lunatic, the lover and the poet area of imagination all compact

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Terra Blog

Categoria: observações do cotidiano

28.09.07

nós e eles

Já não impressiona tanto a passividade dos empregados em relação ao seu papel limitado aos interesses do capital; a chamada “naturalização”, mas sim a absorção dos valores e do discurso da classe alheia; referindo-se ao interesse privado com o pronome “nós”.

O “nós”, que não somos a classe trabalhadora, sugere a idéia de pertencimento ao grupo daqueles que compram a força de trabalho.
A idéia de pertencimento é mais importante que a própria individualidade no discurso que tem como idéia central a responsabilidade, a proteção; o cuidado: o “meu gerente”, “minha diretora”, “meu departamento”.
Por outro lado, até que ponto adotar a postura e o discurso que contradiz o interesse e condição do sujeito, enquanto classe trabalhadora, seria estratégia para se manter o emprego?
A doutrina neoliberal, possuidora de “competência”, que “agrega valor”, e “otimiza recursos” para um “plano de carreira” não parece ter abafado antigas expressões, ditas abertamente no próprio ambiente de trabalho, sobre o desejo de ganhar na loteria (e parar de trabalhar), sobre a segunda-feira pesada, lenta e chata e sobre a leveza das sextas-feiras.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 17:17:50

09.05.07

valor de uso e valor de troca

Fazia muito frio naquele final de tarde de outono em Praga, capital da República Tcheca. Isso foi em 2004. A blusa de lã fina e o agasalho esportivo já não eram suficientes para suportar aquele clima, mesmo com o corpo supostamente aquecido pela caminhada que durara a tarde inteira.
Não dava pra agüentar.

Sem grana, mas favorecido pelo câmbio que tornava minhas libras esterlinas mais fortes em comparação à moeda local, tive que procurar alguma blusa barata pra comprar.
Entrei num brechó, procurei e achei uma blusa bacana de moletom. Era boa. Com capuz e tudo.
E o que era melhor: barata, muito barata, só 4 libras. Comprei, vesti ali mesmo e segui aliviado e finalmente aquecido pra noite que se aproximava. Que sorte!
Anos depois conversava com minha ex-namorada, que é bastante ligada em roupas de grife, sobre meu desinteresse por marcas caras de roupas. Era começo de namoro. Foi aí que ela me disse:
“É... você fala isso, mas tem uma blusa da Dana Karan, que é uma marca cara...”.
Era a blusa de moletom, com capuz e tudo, comprada por 4 libras num brechó pra aliviar meu frio naquele final de tarde de outono na capital da República Tcheca.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 13:24:20

12.04.07

as celebridades do mundinho corporativo

As pessoas querem se tornar celebridades. Também querem ser reconhecidas. As empresas do setor privado respondem em parte a essa expectativa concedendo títulos a seus funcionários através de complexos sistemas de hierarquia em que nomeiam seus empregados como o “funcionário do mês”, o “gerente”, “coordenador de operações” e por aí vai.
O empregado se sente reconhecido e, dentro dos limites da empresa, no mundinho em que vive prestigiado e respeitado pelos outros empregados, é envolto numa aura de admiração e passa a ser tratado como celebridade. Envia e-mails usando seu cargo como sobrenome, pisa firme nos corredores e sente a satisfação de ser envaidecido pelos olhares dos que o cercam.
A empresa preenche parcialmente a necessidade que as pessoas têm em se tornarem celebridades.
Os bens materiais são uma representação do grau de sucesso e do nível hierárquico que o empregado possui dentro de sua empresa, mas são também tentativa de ser reconhecido fora do seu emprego por aqueles que não o conhecem pelo cargo que ocupa.
Uma vez que o status do empregado só é reconhecido dentro da empresa, os bens materiais como carro, telefone celular e roupas são a extensão temporal e espacial para fora dos limites desta. Temporal porque podem ser exibidos nos dias em que não se trabalha e espacial porque podem ser exibidos além dos limites do espaço geográfico da empresa.
É a exteriorização materializada do sentimento de sucesso que o empregado possui para os de dentro da empresa.
Daí vem, em parte, o choque quando esses empregados são despedidos. Custam a se acostumarem à “vida normal”, sem prestígio, sem reconhecimento, sem o sentimento de serem celebridades dentro da empresa.
  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 20:21:12