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É conhecido nos países da América do Sul o gosto pelo debate e a argumentação relativamente politizada do povo argentino.
Essa articulação acima da média, fruto de um bom nível de educação geral, com baixos índices de analfabetismo, move manifestações e lutas por direitos que parecem ser bem mais comuns lá do que aqui.
Deserto de Ica, Peru. Natal de 2005.
O argentino Fernando, que não é lá muito engajado com política, se queixava da ceia de natal.
E com razão: falta de iluminação adequada, talheres de plástico....ruim mesmo.
Já no final da ceia, um funcionário do albergue se aproxima para recolher o restante do valor combinado que ainda não havíamos pagado.
Outro amigo brasileiro e eu pagamos nossa parte.
Mas o inconformado Fernando discutiu, argumentou e ao que parece cansou o tal funcionário que, impaciente, interrompe a discussão e lança a seguinte pergunta:
“De onde você é?”
“Soy argentino.” , responde Fernando.
Meio resignado o funcionário desiste:
“Então deixa pra lá...” e vira as costas pra continuar cobrando os outros hóspedes.
A imagem que muitos têm do Paraguai está ligada à contrabando, suborno, produtos falsificados... enfim, tudo que esteja associado à má qualidade. Assim como outras imagens positivas ou negativas que temos de outros países e seus povos.
Por isso mudei o roteiro da viagem e de Ciudad Del Este segui para a capital Assunção.
Eu, viajante brasileiro em busca da desconstrução de estereótipos, precisava observar mais de perto e reconstruir a imagem do país à minha maneira, desta vez baseada em experiência pessoal.
Já no ônibus, assim como acontecera em Ciudad Del Este , vi e conheci mulheres bonitas, gente simpática e agradável, que aos poucos minavam minha atenção relativista e quase rígida – fiel companheira de viagem – que não me deixa enveredar por generalizações ou percepções romantizadas comuns a um visitante encantado.
Ainda bem.
Assim deu pra encarar numa boa aquele vômito na minha perna, da pobre criança que passara mal durante a última parte da viagem.
Chegando, o centro; curiosamente discreto. E as pessoas; aparentemente tranqüilas e discretamente curiosas.
O Roger, gerente do restaurante mexicano, um paraguaio de nome inglês e que já morou no Brasil, me convida para o concurso de karaokê que vai acontecer um pouco mais tarde ali mesmo no restaurante.
A Viki, que eu conhecera no ônibus, é obstetra e faz trabalho voluntário na Cruz Vermelha. Caminhamos pelo centro tomando tererê, uma espécie de chimarrão gelado. Ela faz questão de carregar, em pleno centro da cidade, a pesada jarra de água gelada e mate pra abastecer o tererê.
Ambos, em situações distintas, me dão seus números de telefone e se oferecem para me acompanhar pela cidade.
E ainda tem o dono do hotel que conversa muito, com o espanhol carregado pelo forte sotaque guarani.
Boa parte da população é bilíngüe.
E assim, aos poucos, recriam minha imagem pessoal e bem menos estreita do país visitado.
Deixando o Paraguai rumo ao nordeste argentino, o ônibus pára na fronteira.
O rapaz argentino que ia sentado na poltrona ao lado carregando cocaína numa mochila passa numa boa.
Eu não. Esquecera de pedir o visto de entrada quando sai de Ciudad Del Este.
O fiscal do posto policial no Paraguai me chama à sua sala e com uma naturalidade impressionante me cobra suborno pra que eu possa seguir viagem. Aceitava reais, pesos argentinos ou guaranis; a moeda local. E eu, que só tinha notas de valores altos suspeitei que ele não me daria troco.
Sorte que no ônibus conheci a pianista Mary; argentina simpática que me emprestou dinheiro trocado.

Cusco, Peru. Inverno de 2005.
A menina tentava espantar os turistas que tiravam fotos com suas lhamas. “Mis llamitas no, mis llamitas no!” Os turistas continuavam a descer do ônibus e os que não paravam pra tirar fotos passavam pela menina direto à próxima ruína prevista no roteiro.
Ela tentava conseguir algum dinheiro ou comida com quem tirasse foto com suas lhamas.
Rosita tinha a pele queimada pelo frio dos Andes Peruanos. Ganhou uma mixirica de alguém.
E umas moedas do viajante que preferiu tirar uma foto dela: eu.

Interessante como a reação acerca de um lugar, visto in loco ou mostrado em algumas fotos, pode variar de acordo com o olhar, a experiência ou o estado emocional de cada um; pode ir da beleza à melancolia; da obviedade de uma paisagem de cartão-postal à curtição solitária de um pôr-do-sol, montado numa bicicleta à beira de um penhasco na costa sul da Inglaterra.

Verão de 2004. Pouca grana e muita curiosidade. Fiquei sabendo de um lugar fantástico, a umas 2 horas de onde eu morava. Preparei o lanche, a bicicleta e embarquei no trem rumo aos penhascos de Beachy Head. Chegando a Eastbourne, típica impressão de cidadezinha costeira da Inglaterra, com píer, pubs, aposentados e tranqüilidade; afinal era tarde de domingo.
Pedalando pela costa, em caminhos de terra cada vez mais altos que o nível do mar, a impressão era de estar em um parque.
Muitas subidas, muitos morros íngremes; difíceis de subir. Paisagens bucólicas. Bancos convidativos. Tudo muito imponente, vasto e com o mar ali ao lado.
Depois de muito esforço, atrás do morro maior, finalmente o farol, no ponto mais alto e mais bonito. Fascinante. O fim de tarde nos ondulados penhascos de Beachy Head deixava tudo ainda mais bonito.

Ou melancólico.
Logo depois da minha visita, li num jornal que um grupo de voluntários organizara rondas para evitar que mais pessoas se jogassem do alto do penhasco.
Beachy Head é um lugar internacionalmente conhecido pelo número de suicídios que ali ocorrem.
Consta que já veio gente do Japão pra se jogar de lá.
Punta Del Este. Verão de 2007.
Saímos de Montevidéu eu e José Roberto, um paulista que mora há alguns anos em Minas Gerais e que por isso já tem aquele sotaque tipicamente mineiro.
Chegando, lojas de grife, carros importados, iates, barcos, casas enormes, restaurantes e albergues caros, cassinos; hotéis luxuosos. “Gente do mundo inteiro”.
Fomos direto ao mercado comprar comida, afinal almoçar em um restaurante com certeza ia sair mais caro.
Fiquei um dia apenas em Puta Del Este.
“Te fazem sentir mal lá”, disseram dois uruguaios descolados que conheci semanas depois em Chuí, Rio Grande do Sul. Pode ser.
Semanas depois de ter voltado ao Brasil conversei com José Roberto, o paulista-mineiro que ficou por lá (meio contrariado) por mais tempo que eu.
Me contou que tinha finalmente achado um lugar mais barato.
Um restaurante que servia refeições simples e com preço honesto. O nome?
“Restaurant El Milagro”.