outros olhares

the lunatic, the lover and the poet area of imagination all compact

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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2007

29.04.07

rosita

categorias: os olhares

Cusco, Peru. Inverno de 2005.

A menina tentava espantar os turistas que tiravam fotos com suas lhamas. “Mis llamitas no, mis llamitas no!” Os turistas continuavam a descer do ônibus e os que não paravam pra tirar fotos passavam pela menina direto à próxima ruína prevista no roteiro.
Ela tentava conseguir algum dinheiro ou comida com quem tirasse foto com suas lhamas.
Rosita tinha a pele queimada pelo frio dos Andes Peruanos. Ganhou uma mixirica de alguém.
E umas moedas do viajante que preferiu tirar uma foto dela: eu.


  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 18:30:09

27.04.07

beleza ou melancolia

categorias: os olhares

Interessante como a reação acerca de um lugar, visto in loco ou mostrado em algumas fotos, pode variar de acordo com o olhar, a experiência ou o estado emocional de cada um; pode ir da beleza à melancolia; da obviedade de uma paisagem de cartão-postal à curtição solitária de um pôr-do-sol, montado numa bicicleta à beira de um penhasco na costa sul da Inglaterra.

Verão de 2004. Pouca grana e muita curiosidade. Fiquei sabendo de um lugar fantástico, a umas 2 horas de onde eu morava. Preparei o lanche, a bicicleta e embarquei no trem rumo aos penhascos de Beachy Head. Chegando a Eastbourne, típica impressão de cidadezinha costeira da Inglaterra, com píer, pubs, aposentados e tranqüilidade; afinal era tarde de domingo.

Pedalando pela costa, em caminhos de terra cada vez mais altos que o nível do mar, a impressão era de estar em um parque.
Muitas subidas, muitos morros íngremes; difíceis de subir. Paisagens bucólicas. Bancos convidativos. Tudo muito imponente, vasto e com o mar ali ao lado.
Depois de muito esforço, atrás do morro maior, finalmente o farol, no ponto mais alto e mais bonito. Fascinante. O fim de tarde nos ondulados penhascos de Beachy Head deixava tudo ainda mais bonito.


Ou melancólico.

Logo depois da minha visita, li num jornal que um grupo de voluntários organizara rondas para evitar que mais pessoas se jogassem do alto do penhasco.
Beachy Head é um lugar internacionalmente conhecido pelo número de suicídios que ali ocorrem.
Consta que já veio gente do Japão pra se jogar de lá.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 22:20:43

23.04.07

o milagre

categorias: os olhares

Punta Del Este. Verão de 2007.
Saímos de Montevidéu eu e José Roberto, um paulista que mora há alguns anos em Minas Gerais e que por  isso já tem aquele sotaque tipicamente mineiro.

Chegando, lojas de grife, carros importados, iates, barcos, casas enormes, restaurantes e albergues caros, cassinos; hotéis luxuosos. “Gente do mundo inteiro”. 
Fomos direto ao mercado comprar comida, afinal almoçar em um restaurante com certeza ia sair mais caro.
Fiquei um dia apenas em Puta Del Este.
“Te fazem sentir mal lá”, disseram dois uruguaios descolados que conheci semanas depois em Chuí, Rio Grande do Sul. Pode ser.
Semanas depois de ter voltado ao Brasil conversei com José Roberto, o paulista-mineiro que ficou por lá (meio contrariado) por mais tempo que eu. 

Me contou que tinha finalmente achado um lugar mais barato.
Um restaurante que servia refeições simples e com preço honesto. O nome?
“Restaurant El Milagro”.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 23:48:13

20.04.07

gente do mundo inteiro

categorias: os olhares

Viajar é, antes de conhecer lugares, conhecer gente.
Muito se ouve falar sobre pessoas que viajam e conhecem, como se diz por aí, "gente do mundo inteiro”.
Viajando, muito vi, muito conheci e muito conversei com ingleses, americanos, holandeses, franceses, suecos, canadenses... “gente do mundo inteiro”; mochileiros viajando pela América do Sul e pela Europa.
Diante da ausência de grandes grupos de mochileiros vindos de países pobres, lembrei de algumas pessoas que conheci em dois trabalhos voluntários.
Um destes trabalhos, em uma ONG, um grupo de senhoras tinha aulas de inglês. Eram na maioria refugiadas ou migrantes pobres tentando a vida na Inglaterra.
Lá conheci senhoras do Egito, México, Brasil, Irã, Colômbia...
A ONG também funcionava como uma creche.
Era estranho ver todas aquelas senhoras num esforço constrangido pra aprender inglês sabendo que provavelmente muitos dos seus filhos pequenos já dominassem tal idioma com mais fluência que elas próprias.
O outro trabalho era mais intenso. Consistia em visitar e acompanhar uma vez por semana migrantes que tivessem sido pegos com o visto vencido ou sem a documentação necessária que permitisse residir ou trabalhar no país. O nome que se dava para o lugar onde eles ficavam era “Centro de Remoção” mas na prática eles eram mantidos presos mesmo. Esse “centro de remoção” ficava ao lado do aeroporto de Gatwick, muito provavelmente por razões logísticas, reduzindo assim custos com extradições.

Muito se ouvia sobre denúncias de maus tratos e abuso de poder por lá.

Conheci e visitei regularmente durante dois meses o africano Nicholas Owino, que já estava preso há três meses quando comecei a visitá-lo.

Nicholas tinha a mesma idade que eu à época, 25 anos. Era HIV positivo e sua condição de preso não o permitia receber tratamento adequado.

Minha função, além de tentar prover suporte emocional, era intermediar o relacionamento do preso com seu advogado, pois muitos dos próprios migrantes tinham receio de conversar com seus representantes legais.
Como Nicholas tinha uma doença grave, meu papel era também interagir com a ONG francesa Médicos Sem Fronteiras, que tentava junto à autoridades inglesas um tratamento adequado para ele.
Lembro que Nicholas e eu conversávamos sobre o Brasil, sobre mulheres (da falta delas, melhor dizendo), sobre suas chances de sair de lá e tudo mais.
A sala de visitas, limpa e organizada era coletiva e possuía TV e brinquedos, pois era comum que famílias inteiras inclusive com crianças se vissem privada de liberdade na terra da rainha.
No meu primeiro dia como visitante lembro ter visto uma mulher de menos de 30 anos chorando muito; dizia não haver cometido crime nenhum para estar presa. Era da Nigéria.
Também lembro da dificuldade que tive ao tentar conversar com um rapaz que já havia esquecido o português depois de tantos anos morando em países de língua francesa para fugir da guerra civil.

Era angolano.
Nicholas Owino, o migrante que eu visitava, era de Uganda. Nunca vi nenhum mochileiro de Uganda. Nem da Nigéria. Nem de Angola.
Há algum tempo atrás na entrada para Machu Picchu, havia um grupo de brasileiros numa pequena e barulhenta manifestação contra os preços altos dos ingressos que, segundo eles, eram muito caros para os padrões latino-americanos, impedindo que estes conhecessem sua própria terra. Os preços beneficiariam turistas dos países desenvolvidos e uma minoria de gente com grana dos países pobres.
Eles tinham razão.
Quanto entrei, a maioria era mesmo  “gente do mundo inteiro”.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 22:34:54

parlamento alemão

categorias: os olhares

A construção em forma de espiral com espelhos que refletem o parlamento foi pensada para permitir que se visse o trabalho dos políticos que representam – ao menos deveriam – o povo alemão. Seria a materialização da idéia de que o povo deve vigiar o trabalho dos políticos que elegeu. Confesso que não vi ninguém trabalhando lá embaixo mas......a idéia é bacana.
Você sobe uma rampa ao redor dessa coluna cheia de espelhos e chega ao teto do parlamento, de onde se têm uma vista legal – ainda que limitada pelos prédios ao redor - do centro de Berlim. Fazia um pouco de frio, afinal já era outono.
Embaixo, na base da coluna envidraçada há uma série de painéis com um resumo da história alemã.


  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 22:02:53