outros olhares

the lunatic, the lover and the poet area of imagination all compact

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Terra Blog

28.09.07

nós e eles

Já não impressiona tanto a passividade dos empregados em relação ao seu papel limitado aos interesses do capital; a chamada “naturalização”, mas sim a absorção dos valores e do discurso da classe alheia; referindo-se ao interesse privado com o pronome “nós”.

O “nós”, que não somos a classe trabalhadora, sugere a idéia de pertencimento ao grupo daqueles que compram a força de trabalho.
A idéia de pertencimento é mais importante que a própria individualidade no discurso que tem como idéia central a responsabilidade, a proteção; o cuidado: o “meu gerente”, “minha diretora”, “meu departamento”.
Por outro lado, até que ponto adotar a postura e o discurso que contradiz o interesse e condição do sujeito, enquanto classe trabalhadora, seria estratégia para se manter o emprego?
A doutrina neoliberal, possuidora de “competência”, que “agrega valor”, e “otimiza recursos” para um “plano de carreira” não parece ter abafado antigas expressões, ditas abertamente no próprio ambiente de trabalho, sobre o desejo de ganhar na loteria (e parar de trabalhar), sobre a segunda-feira pesada, lenta e chata e sobre a leveza das sextas-feiras.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 17:17:50

07.09.07

o viajante colombiano

categorias: os outros

Depois de viajar durante dois anos pela América do Sul, Arnaldo viu muita coisa: chorou ao ver a miséria da Bolívia, se encantou com as mulheres argentinas e não gostou muito do Uruguai; “meio vazio durante o inverno”.
Gostou muito de tudo, conheceu muita gente e já fala em viajar pela América Central, mas agora quer mesmo é voltar pra Colômbia e gravar algumas músicas com seu violão.
Cansou.
Viajar sem dinheiro é difícil, dizia freqüentemente.
Dias depois o reencontrei e, intrigado com a aparente contradição entre os relatos entusiasmados de viagem e o intenso desejo de voltar a seu país, perguntei:
“Mas e aquela historia que diz que o interessante é justamente crescer com as dificuldades, conhecer-se melhor, aprender sobre a vida... ?”
“Aprendi a não viajar mais sem dinheiro”, disse o simpático e agora cansado colombiano.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 20:24:55

03.07.07

argentinidad al palo

categorias: os olhares

É conhecido nos países da América do Sul o gosto pelo debate e a argumentação relativamente politizada do povo argentino.
Essa articulação acima da média, fruto de um bom nível de educação geral, com baixos índices de analfabetismo, move manifestações e lutas por direitos que parecem ser bem mais comuns lá do que aqui.
Deserto de Ica, Peru. Natal de 2005.
O argentino Fernando, que não é lá muito engajado com política, se queixava da ceia de natal.

E com razão: falta de iluminação adequada, talheres de plástico....ruim mesmo.
Já no final da ceia, um funcionário do albergue se aproxima para recolher o restante do valor combinado que ainda não havíamos pagado.
Outro amigo brasileiro e eu pagamos nossa parte.
Mas o inconformado Fernando discutiu, argumentou e ao que parece cansou o tal funcionário que, impaciente, interrompe a discussão e lança a seguinte pergunta:
“De onde você é?”
“Soy argentino.” , responde Fernando.
Meio resignado o funcionário desiste:
“Então deixa pra lá...” e vira as costas pra continuar cobrando os outros hóspedes.

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 14:01:54

11.06.07

lawrence e a normalidade

categorias: os outros
Quando cheguei, Lawrence estava sentado no sofá da sala.
Tinha um espelho grande no colo, um canudo no nariz e muitas carreiras de cocaína pra cheirar.
Fugiu de casa na adolescência. Morou na rua. Teve uma namorada que trabalhava como prostituta. Quebrou o braço de um dos policiais na briga que teve ao ver sua namorada com outro.
Ficou preso um tempo. Se incomodava com o cheiro do seu companheiro de cela; um francês que não tomava banho.
Viveu um tempo na Grécia com uma outra namorada. O pai dela era gente boa. Não confiava em homens que não bebiam.
Certa vez comprou ecstasy na saída de uma balada. Já fora, percebeu que não lhe fizera nenhum efeito. Não era de boa qualidade. Ficou furioso. Bêbado, voltou e tentou convencer o segurança a deixá-lo entrar e pegar o maldito polonês que lhe vendera o comprimido. Não teve jeito.
Lawrece, um observador do comportamento humano, não gostava de “reality shows”.
“Essa gente que aparece nesses programas é muito fora do normal”, dizia.
  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 23:24:17

03.06.07

paraguay e os iconoclastas

categorias: os olhares

A imagem que muitos têm do Paraguai está ligada à contrabando, suborno, produtos falsificados... enfim, tudo que esteja associado à má qualidade. Assim como outras imagens positivas ou negativas que temos de outros países e seus povos.
Por isso mudei o roteiro da viagem e de Ciudad Del Este segui para a capital Assunção.

Eu, viajante brasileiro em busca da desconstrução de estereótipos, precisava observar mais de perto e reconstruir a imagem do país à minha maneira, desta vez baseada em experiência pessoal.
Já no ônibus, assim como acontecera em Ciudad Del Este , vi e conheci mulheres bonitas, gente simpática e agradável, que aos poucos minavam minha atenção relativista e quase rígida – fiel companheira de viagem – que não me deixa enveredar por generalizações ou percepções romantizadas comuns a um visitante encantado.

Ainda bem.

Assim deu pra encarar numa boa aquele vômito na minha perna, da pobre criança que passara mal durante a última parte da viagem.
Chegando, o centro; curiosamente discreto. E as pessoas; aparentemente tranqüilas e discretamente curiosas.
O Roger, gerente do restaurante mexicano, um paraguaio de nome inglês e que já morou no Brasil, me convida para o concurso de karaokê que vai acontecer um pouco mais tarde ali mesmo no restaurante.
A Viki, que eu conhecera no ônibus, é obstetra e faz trabalho voluntário na Cruz Vermelha. Caminhamos pelo centro tomando tererê, uma espécie de chimarrão gelado. Ela faz questão de carregar, em pleno centro da cidade, a pesada jarra de água gelada e mate pra abastecer o tererê.
Ambos, em situações distintas, me dão seus números de telefone e se oferecem para me acompanhar pela cidade.
E ainda tem o dono do hotel que conversa muito, com o espanhol carregado pelo forte sotaque guarani.

Boa parte da população é bilíngüe.
E assim, aos poucos, recriam minha imagem pessoal e bem menos estreita do país visitado.
Deixando o Paraguai rumo ao nordeste argentino, o ônibus pára na fronteira.

O rapaz argentino que ia sentado na poltrona ao lado carregando cocaína numa mochila passa numa boa.
Eu não. Esquecera de pedir o visto de entrada quando sai de Ciudad Del Este.
O fiscal do posto policial no Paraguai me chama à sua sala e com uma naturalidade impressionante me cobra suborno pra que eu possa seguir viagem. Aceitava reais, pesos argentinos ou guaranis; a moeda local. E eu, que só tinha notas de valores altos suspeitei que ele não me daria troco.
Sorte que no ônibus conheci a pianista Mary; argentina simpática que me emprestou dinheiro trocado.

 

  • criado por  Edson criado por Edson
  • Postado em 19:05:36