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Já não impressiona tanto a passividade dos empregados em relação ao seu papel limitado aos interesses do capital; a chamada “naturalização”, mas sim a absorção dos valores e do discurso da classe alheia; referindo-se ao interesse privado com o pronome “nós”.
O “nós”, que não somos a classe trabalhadora, sugere a idéia de pertencimento ao grupo daqueles que compram a força de trabalho.
A idéia de pertencimento é mais importante que a própria individualidade no discurso que tem como idéia central a responsabilidade, a proteção; o cuidado: o “meu gerente”, “minha diretora”, “meu departamento”.
Por outro lado, até que ponto adotar a postura e o discurso que contradiz o interesse e condição do sujeito, enquanto classe trabalhadora, seria estratégia para se manter o emprego?
A doutrina neoliberal, possuidora de “competência”, que “agrega valor”, e “otimiza recursos” para um “plano de carreira” não parece ter abafado antigas expressões, ditas abertamente no próprio ambiente de trabalho, sobre o desejo de ganhar na loteria (e parar de trabalhar), sobre a segunda-feira pesada, lenta e chata e sobre a leveza das sextas-feiras.

Depois de viajar durante dois anos pela América do Sul, Arnaldo viu muita coisa: chorou ao ver a miséria da Bolívia, se encantou com as mulheres argentinas e não gostou muito do Uruguai; “meio vazio durante o inverno”.
Gostou muito de tudo, conheceu muita gente e já fala em viajar pela América Central, mas agora quer mesmo é voltar pra Colômbia e gravar algumas músicas com seu violão.
Cansou.
Viajar sem dinheiro é difícil, dizia freqüentemente.
Dias depois o reencontrei e, intrigado com a aparente contradição entre os relatos entusiasmados de viagem e o intenso desejo de voltar a seu país, perguntei:
“Mas e aquela historia que diz que o interessante é justamente crescer com as dificuldades, conhecer-se melhor, aprender sobre a vida... ?”
“Aprendi a não viajar mais sem dinheiro”, disse o simpático e agora cansado colombiano.
É conhecido nos países da América do Sul o gosto pelo debate e a argumentação relativamente politizada do povo argentino.
Essa articulação acima da média, fruto de um bom nível de educação geral, com baixos índices de analfabetismo, move manifestações e lutas por direitos que parecem ser bem mais comuns lá do que aqui.
Deserto de Ica, Peru. Natal de 2005.
O argentino Fernando, que não é lá muito engajado com política, se queixava da ceia de natal.
E com razão: falta de iluminação adequada, talheres de plástico....ruim mesmo.
Já no final da ceia, um funcionário do albergue se aproxima para recolher o restante do valor combinado que ainda não havíamos pagado.
Outro amigo brasileiro e eu pagamos nossa parte.
Mas o inconformado Fernando discutiu, argumentou e ao que parece cansou o tal funcionário que, impaciente, interrompe a discussão e lança a seguinte pergunta:
“De onde você é?”
“Soy argentino.” , responde Fernando.
Meio resignado o funcionário desiste:
“Então deixa pra lá...” e vira as costas pra continuar cobrando os outros hóspedes.
A imagem que muitos têm do Paraguai está ligada à contrabando, suborno, produtos falsificados... enfim, tudo que esteja associado à má qualidade. Assim como outras imagens positivas ou negativas que temos de outros países e seus povos.
Por isso mudei o roteiro da viagem e de Ciudad Del Este segui para a capital Assunção.
Eu, viajante brasileiro em busca da desconstrução de estereótipos, precisava observar mais de perto e reconstruir a imagem do país à minha maneira, desta vez baseada em experiência pessoal.
Já no ônibus, assim como acontecera em Ciudad Del Este , vi e conheci mulheres bonitas, gente simpática e agradável, que aos poucos minavam minha atenção relativista e quase rígida – fiel companheira de viagem – que não me deixa enveredar por generalizações ou percepções romantizadas comuns a um visitante encantado.
Ainda bem.
Assim deu pra encarar numa boa aquele vômito na minha perna, da pobre criança que passara mal durante a última parte da viagem.
Chegando, o centro; curiosamente discreto. E as pessoas; aparentemente tranqüilas e discretamente curiosas.
O Roger, gerente do restaurante mexicano, um paraguaio de nome inglês e que já morou no Brasil, me convida para o concurso de karaokê que vai acontecer um pouco mais tarde ali mesmo no restaurante.
A Viki, que eu conhecera no ônibus, é obstetra e faz trabalho voluntário na Cruz Vermelha. Caminhamos pelo centro tomando tererê, uma espécie de chimarrão gelado. Ela faz questão de carregar, em pleno centro da cidade, a pesada jarra de água gelada e mate pra abastecer o tererê.
Ambos, em situações distintas, me dão seus números de telefone e se oferecem para me acompanhar pela cidade.
E ainda tem o dono do hotel que conversa muito, com o espanhol carregado pelo forte sotaque guarani.
Boa parte da população é bilíngüe.
E assim, aos poucos, recriam minha imagem pessoal e bem menos estreita do país visitado.
Deixando o Paraguai rumo ao nordeste argentino, o ônibus pára na fronteira.
O rapaz argentino que ia sentado na poltrona ao lado carregando cocaína numa mochila passa numa boa.
Eu não. Esquecera de pedir o visto de entrada quando sai de Ciudad Del Este.
O fiscal do posto policial no Paraguai me chama à sua sala e com uma naturalidade impressionante me cobra suborno pra que eu possa seguir viagem. Aceitava reais, pesos argentinos ou guaranis; a moeda local. E eu, que só tinha notas de valores altos suspeitei que ele não me daria troco.
Sorte que no ônibus conheci a pianista Mary; argentina simpática que me emprestou dinheiro trocado.
